Maçã podre

Crônica da Revista Época Por Maitê Proença
"Outro dia minha professora de yoga, vida equilibrada, arroz integral e muito OM, foi parar num proctologista. Depois de eliminar dezenas de possibilidades para a origem de um cansaço que não cedia, descobriu no tal doutor que em suas fezes havia sido detectada a presença de um protozoário perigosíssimo.

- Sabe amiga, o doutor me disse que é muito comum neste país quente e sujo as pessoas terem esses bichos andando pelo corpo. Come-se uma salada mal lavada e pronto! Eles se instalam, se alastram, e vão fazendo um estrago sem que o portador jamais descubra a causa de seus males.
- Assustada, marquei consulta para o dia seguinte. Para adiantar, levei a amostra do material colhido pela manhã. Entreguei ao médico e começamos. Pergunta de cá, pergunta de lá, contei-lhe a vida inteira. O tom era tão confessional que lá pelas tantas me ouvi contando assuntos do coração. No desabafo abri um berreiro tamanho que o doutor vindo pro meu lado da mesa, pegou minha mão, e ficou ali me chamando de filha até aquilo ceder. Cedeu. No dia seguinte voltei para o diagnóstico. Um bicho maligno vivia dentro de mim. Não era a toa que eu apresentasse tamanho desequilíbrio emocional. Aquela tristeza toda não tinha nada a ver com os meus porquês existenciais e muito menos com o fato do Antônio não querer mais nada comigo e estar preferindo ter tudo com uma fulana bunduda, chata e burra. Absolutamente. O meu problema era que meu corpo carregava uma ameba perigosíssima, tão provocadora de crises e comedora de órgãos que era admirável que eu ainda me encontrasse em pé. Felizmente a criatura se encontrava em quantidade diminuta e iríamos dizimá-la em pouquíssimo tempo. Tudo voltaria ao normal. Teria minha vida de volta, plena e feliz em questão de um mês! Adorei o médico! Agora eu sabia que os meus problemas tinham uma origem externa e não era eu mas ele que iria resolver tudinho. Minhas angústias estavam todas localizadas num bicho oportunista que o médico iria abolir de dentro de mim. Talvez eu devesse reconsiderar minha resistência a consultórios. Isso mesmo. Médicos eram do bem. Médicos eram O BEM. Eu vinha pensando mesmo em visitar um endocrinologista indicado por meu ginecologista para indagar sobre o tão propalado uso do hormônio de crescimento.

O boato é que certa atriz conservadíssima está tomando. Um monte de gente famosa faz uso e diz maravilhas. Um grande criador de televisão que só não é médico por deslize mas sabe tudo do que há de mais moderno, toma. Todos vão assim vencendo as barreiras do tempo. Porque só eu tenho de percorrê-lo sem ajuda de artifícios? A ciência aí pesquisando pra aliviar minha onda e eu aqui carregando pedras por livre e espontânea vontade. Isso é que é envelhecer mal.

Abaixo a sopinha de missô! O arroz integral que se dane, eu vou é pras cabeças! E fui. O endócrino era um cartão de visitas. Lindo, jovem, vigoroso, pele de garoto, corpo de surfista. Tinha 55 anos que pareciam 38. Contou-me as vantagens do tratamento, numa sucessão de maravilhas sem fim. Faríamos um check-up trimestral pra ver como meu corpo reagia ao hormônio e de resto era gozar a vida em sua plenitude com aparência de menina numa cabeça de mulher. Irresistível!

Comecei a tomar. No início tudo eram flores e muito parecido com o que o cartão de visitas havia prometido. Depois de alguns meses notei que algumas partes do meu corpo estavam se modificando ligeiramente. Crescendo um pouco, inchando talvez. Pelos apareciam onde nunca os tive. E eu andava excitada demais com a vida, devo admitir. Mas os benefícios eram tantos que continuei o tratamento relevando aqueles pequenos percalços. E assim segui, encantada, durante meses a fio. Durante esse período minha barriga sumiu e o que sobrou ali era a de um lutador de jiu jitsu. Bíceps, tríceps quadríceps, tudo uma rocha. A pele tornou-se lustrosa, elástica, o branco do olho alvo e minha íris de um azul celestial. Cheia de energia, eu era um espetáculo! ... A não ser por alguns detalhes que foram se tornando cada vez menos dissimuláveis. Para encurtar a estória, que é longa e triste, esta figura que vos fala - ah desculpe, esqueci de me apresentar, meu nome é Mirna, prazer - e sou o resultado de três cirurgias corretivas para retornar a proporções aceitáveis o nariz, as orelhas, e um terceiro lugar de minha anatomia que não tenho coragem de declarar. E mais; são cinco horas de depilação semanal, duas horas diárias na analista, e um desfalque na conta bancária para trocar todos meus sapatos e sandálias por números compatíveis com o atual tamanho 42. Um estrago!

- Talvez seja verdade que a maconha leve à cocaína que leva à heroína e aquelas coisas todas que os pais dizem quando a gente tem 15 anos. Pois aos 40, receio que o psicanalista leve ao ginecologista, que leva ao proctologista que leva ao endocrinologista, que te transforma em alguém que você nunca quis ser.

- Portanto, espelho espelho meu existe alguém mais bela do que eu?

- Sim, sempre haverá querida, mas e daí? Não vai dar pra envenenar a vizinha linda só porque hoje ela é a branca de neve do seu espelho. Então vamos largando essa maça podre e tocando em frente. Assim como Deus lhe fez, se você conseguir ver o mundo verá, que você, lindona, também é boa a beça!"

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