No coração de Clarice


Numa crônica sobre uma viagem ao Egito, Clarice Lispector dá a dimensão do seu mistério: "Vi a esfinge. Não a decifrei. Mas ela também não me decifrou", escreveu. O americano Benjamin Moser sabia, portanto, o tamanho da encrenca que enfrentaria ao biografar a autora de Perto do Coração Selvagem - e desempenhou a tarefa maestria.

Clarice, uma Biografia (CosacNaify, 648 páginas, R$79) é o mais completo trabalho sobre a vida da mulher que "se parecia com Marlene Dietrich e escrevia como Virgínia Woolf", como definiu certa vez o tradutor Gregory Rebassa. O livro destrincha desde a origem judia da escritora, nascida na Ucrânia, até seus últimos dias (o diálogo com o taxista a caminho do hospital, relembrado por uma amiga, é comovente).

Moser se apaixonou pelos textos de Clarice num curso de português na faculdade. Em busca de informações, viajou por todos os países onde Clarice, que foi casada com um diplomata, morou. Uma das surpresas da pesquisa, conta ele, foi saber que a autora tentava matar seus personagens nos anos 1970 e não conseguia. Até que, enfim, mata Macabéa, em A Hora da Estrela, e morre pouco depois da publicação do livro.

Acredito que é por isto que a obra da Clarice nos comove tanto: ela se revela tão completamente nos seus livros que, quando é a hora de a personagem morrer, ela também tem que se despedir. E teria o biógrafo decifrado a esfinge? "Respondi as perguntas que tinha ao começar e consegui desmentir muitos mitos", fala Moser. "O mistério maior, do gênio artístico, sempre permanece um segredo", completa.

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