O ritual das Gueixas


Que o diga o ex-primeiro-ministro japonês Uno Sosuke, que renunciou ao cargo em 1989. Um dos motivos que o levou a largar a política foi a revelação de que mantinha uma amante Gueixa que, um belo dia, ameaçou contar a quem estivesse disposto a ouvir tudo o que sabia sobre ele. Na época, foi um grande escandâlo. Não tanto pelo fato de um político ter se engraçado com uma gueixa – ato considerado “normal” e até digno de um certo status entre a ala masculina da sociedade nipônica. O rebuliço foi infinitamente maior no próprio meio das casas de gueixas. Afinal, uma delas havia quebrado um código de honra considerado sagrado ao deixar vazar a privacidade de seu patrocinador.

O eufemismo “patrocinador” serve para designar um admirador de arte gueixa que resolve se aproximar de uma delas mais intimamente. Há várias formas de patrocinadores, classificados de acordo com o valor dos presentes e a quantidade de dinheiro que doam para a gueixa manter-se sempre bela e vestida com os quimonos mais caros da praça. Sim, porque apesar de as gueixa estarem muito distantes do conceito de prostitutas no Japão, podem se dar ao luxo de alimentar um tórrido romance com um patrocinador de sua escolha – que, a partir desse momento, passa a ser chamado de danna. Só que ele terá de pagar caro por isso, tanto para a geiko como para o oki-ya ao qual ela pertence.

O visual irretocável das gueixas é uma de suas marcas registradas. Varia de acordo com o estágio do aprendizado. Assim, as maikos são obrigadas a cultivar uma vasta cabeleira até se transformarem gueixas. A partir dessa etapa, a garota tem passe livre para aparar os fios e começar a usar uma peruca requintadíssima, feita com cabelos de verdade, que pode atingir a casa dos 300 mil ienes (cerca d 2,6 mil dólares).

Outra diferença fica por conta dos ornamentos. Enquanto é permitido à maiko abusar de cores e firulas, as gueixas têm de manter a pose com adereços discretos, que lhe conferem um ar mais adulto. Tanto aprendizes quanto veteranas, no entanto, dispensam o mesmo cuidado para preservar o penteado por até uma semana. Feito conseguido às custas de muita parafina e de um travesseiro de madeira com uma almofadinha, o takamakura. A maquiagem (shironuri) é um capítulo à parte.

Takamakura

Elaborada pelas próprias gueixas e maikos, é feita com uma tintura branca, escolhida no passado como um artifício das japonesas para se igualar à tez branquíssima das madames européias do século XVII. A pintura do rosto, pescoço e parte do tórax é um ritual diário que consome uma hora do tempo das meninas todos os dias. O charme garantido pela parte deixada à mostra do pescoço para provocar os clientes – região considerada de extrema sensualidade pelos homens japoneses. Depois de toda essa preparação, a gueixa ainda tem de agradar a ajuda de um “vestidor”, já que é preciso força e técnica para amarrar o obi, cinturão que enfeita e prende o quimono no corpo. Só após essa etapa as meninas estão prontas para deixar o oki-ya em direção à casa de chá e enfrentar mais uma noite de batente.

Apesar de se orgulhar de manter uma tradição secular, o mundo da gueixa não é totalmente arredio à modernidade. Pode parecer brincadeira, mas a globalização pode ser a saída para a sobreviência das gueixas. Apesar de tradicional, o universo que habitam sempre foi contestado na sociedade japonesa, principalmente pelas esposas dos clientes das casas de chá. No Japão moderno, com a gradativa liberação da mulher, a oposição ganhou força que o número de gueixas não chega a mil atualmente, num processo de franca extinção se comparando às 80 mil gueixas na ativa no início do século.

A sociedade nipônica hoje é bem diferente do século XVII, quando as mulheres eram mais submissas aos anseios masculinos e pouco se importavam com o avanço das gueixas. O Japão chega ao terceiro milênio tendo enviado uma astronauta ao espaço (Chiaki Mukai) e bancando uma mulher de 38 anos (Seiko Noda) como ministra dos Correios e Telecomunicações. É mais do que justificável, porém, que as esposas nipônicas sintam-se mais confortáveis ao manifestar seu repúdio a idéia de ver seus maridos gastando fortunas divertindo-se ao lado de gueixas. “O cenário histórico cultural mudou”.

Uma das opções de trabalho que vem contribuindo para o declínio do número de gueixas são as hostess, recepcionistas que trabalham em bares japoneses conhecidos por sunakku (do inglês snack bar). O número de hostess e sunakkus vem crescendo a cada ano e faz frente ao trabalho das gueixas, principalmente porque o serviço é muito mais barato e permite o acesso da classe média masculina do Japão. Para se ter uma idéia do páreo duro que as gueixas têm pela frente, ir a bares de hostess foi a sexta atividade de lazer mais procurada pelos homens japoneses em 1997.

Certas ou erradas, as gueixas parecem não se importar com o fato de fazer companhia a homens casados. Mesmo porque elas realmente acreditam que não são apenas “a outra” quando a relação com o cliente acaba em um tórrido romance. “No nosso universo não somos amantes. E como não conheço outro mundo, aqui somos esposas, podemos ter filhos deles se quisermos”, explica a gueixa Kimisome.



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