Perigo, perigo, não tem registro!


Fico imaginando o doutor Smith, do seriado "Perdidos no espaço", assistindo ao garçom preparar um sorvete com nitrogênio líquido. hehehe...


Que a gastronomia vive numa fase única não é novidade. Efervescência de ideias, técnicas, visões e pensamentos interessantíssimos comungam com um excesso de pirotecnia pelas cozinhas mundo afora. Que tudo isso é bom, seja qual for a filosofia de trabalho dentro da sua cozinha, também é fato. Gostar ou não gostar de toda essa parafernália tecnológica que recentemente tomou conta das cozinhas não é o cerne da questão. Afinal, cozinha é sensação, é desejo, é expressão e, acima de tudo, liberdade. Cada um que emita a sua opinião em três vias, um verde, uma amarela e outra branca. A branca fica com você, a vermelha vai para o seu fornecedor e a verde você entrega para seu cliente, que a levará como souvenir!

O cerne da questão me parece estar justamente nessa via. A verde! Aquela avalizada por nós. Aquela que o nosso cliente levará para casa depois do jantar como lembrança. A questão é: que lembrança será essa? Será que não estamos mias preocupados com o show, com a surpresa, com a extravagância, do que propriamente com as sensações duradouras? Para surpreender hoje em dia vale tudo... bolhas, bolhinhas e bolhões. Equipamentos de última geração, pirotecnia e até fogos de artifício, se necessário for. Estamos dispostos a tudo para encher os ohlos dos clientes diante do nosso show de luzes e cores. Podemos até transformar os nossos garçons em malabaristas ou contorcionistas se isso causar estranheza.

Estranheza! Essa parece ser a palavra-chave, aquela que abre as portas mais inesperadas desse incrível universo da gastronomia moderna. Seres estranhos, vindos das profundezas da terra, do mar e do ar. Mutações nunca antes imaginadas fora dos filmes científicos que costumávamos ver na "sessão  da tarde hoje acontecem bem ali, diante dos nossos olhos, no salão dos restaurantes. Fico imaginando a cara do Doutor Smith, aquele personagem rabugento do antológico seriado Perdidos no Espaço, assistindo ao garçom preparar um sorvete em míseros três minutos utilizando suco de fruta e nitrogênio líquido.

Ou assisti-lo trazer o seu prato em absolutamente vazio da cozinha, repousá-lo à sua frente, ligar uma impressora na corrente elétrica, apertar o botão "imprimir" e agardar sorrindo uma impressão. Enquanto isso, outro garçom se aproxima e deposita na mesa uma grande cúpula de vidro enfumaçada e, num gesto preciso e delicado, retira a tampa, que imediatamente libera uma fumaça com aroma inebriante de frango assado com batatas.

Em alguns segundos o outro garçom retira o papel comestível cuidadosamente da impressora e, golpes rápidos e precisos, corta-o em dois. Serve o primeiro para o Doutor Smith, e diz: "Aí está, senhor, a parte escura da carne, como o senhor gosta". E o outro para o Robot B9, que mais do que rapidamente,  antes mesmo de ouvir as explicações do garçom, setencia: "Perigo, perigo! Não tem registro!".

Pensando bem, pode até ser que toda essa mise-en-scène tenha alguma conexão com o passado. Lembram-se ou já souberam da magia criada em torno do preparo de um simples crepe suzette no salão dos restaurantes nos anos 70? Espera aí, mas crepe suzette se faz com farinha, açúcar, leite, ovos, laranja, boas colheradas de manteiga e licor! Tudo isso, que eu saiba, tem registro!!

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