Estranho na xícara



Nova safra de café extraído de grãos que passam pelo sistema digestivo de uma ave está tinindo!!!

"Sou uma dessas obstinadas pela busca de coisinhas que eu nunca experimentei. E vou colocando as impressões num diário (que falam mais de comida do que qualquer outra coisa). Dia desses fui fuçar umas velharias e retomei uma cena numa cafeteria. Estavam ali as impressões sobre minha primeira prova do Jacu Bird Coffee. Aquele café que passa pelo sistema digestivo de uma ave, inspirado no café Kopi Luwac, da Indonésia (um dos mais raros e caros do mundo, ingerido por um animal similar ao gambá).

Nos dois casos, os grãos passam praticamentes intactos pelo sistema digestivo do animal. No caso da ave, repare, o processo é ainda mais rápido. O bicho não tem estômago. É na moela debaixo do bico que ele extrai o que lhe interessa: a mucilagem do fruto. Em seguida, elimina os grãos perfeitamente protegidos pelo pergaminho, a película que fica entre o grão e a polpa.

Depois de eliminados pelas fezes, são colhidos manualmente. Profissionais sentam-se à mesa e separam cada grãozinho, que aparece misturado a sementes de coqueiros, de pitanga...

Na fazenda Camocim, no Espírito Santo, rodeada de floresta, os pássaros são atraídos pelos frutos amadurecidos no inverno. Neste ano, Henrique Sloper de Araujo, à frente do negócio, diz que a safra, que acabou de ser colhida, será um pouco menor em relação ao ano anterior, por conta do inverno tardio. Mas está especialmente boa, o que explica o regresso da exportação desse tipo de café. Boa parte da produção acaba em Tóquio, Londres, Estados Unidis e Paris. Tanto que, no próprio Espírito Santo, apenas a Casa do Porto, em Vitória, a Estalagem Petra e o restaurante Don Lorenzoni, em Pedra Azul, servem o tal grão.

Aqui no Brasil, quem quiser experimentar a bebida pode encontrar detalhes no site da fazenda Camocim, ainda não traduzido para o português. Lembre-se: esse café, extraído somente de grãos arábica (de qualidade superior), orgânicos e ingeridos - e ligeiramente eliminados - pelo pássaro, que busca os frutos mais maduros e adocicados, alcança preços superiores (cada 250 g custa em torno de R$ 80).

E primeiro agrada, sim, pelo exotismo. Mas ele é bem mais que isso:superequilibrado, aromático, com torra suave e doce  -  aqui os frutos tão maduros, escolhidos pela ave, parecem de fato fazer diferença. E quem faz cara feia antes de tomar abre um sorriso satisfeito depois".


Luíza de Andrade


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