Parece brinquedo


Parece brinquedo, mas só parece. Os bonecos de Yoshitomo Nara, fofinhos à primeira vista, têm sempre o semblante fechado e um detalhe perverso.

Ao chegar à Ásia Society, no Upper Eat Side, o visitante é convidado a entrar em um mundo de bonequinhos fofos e coloridos, quase sempre dotados com os olos imensos típicos dos personagens de mangá. Mas não espere Hello Kittys nem tampouco super-heroínas de cabelo esvoaçante. As bonecas criadas pelo japonês Yoshitomo Nara, embora com um quê de álbum de figurinhas, invariavelmente têm o semblante fechado e um ou outro detalhe perverso. Reparem que elas trazem uma faca na mão ou um machucado com curativo. Há sempre um sentimento de frustração com o cotidiano, um senso quase universal de impotência. 



Com 30 anos de carreira e considerado um dos fundadores da pop art japonesa dos anos 90 ao lado de Takashi Murakami, Nara, que bebe da mesma fonte de mangás, animês e cultura contemporânea, não tem nada do Kitsch psicodélico do colega. A influência mais significativa do trabalho dele é a música. Os temas e humores vão mudando de acordo com o que ele escuta.

Nascido em Hirosaki, norte do Japão, em 1959, Nara ficava muitas horas sozinho quando voltava da escola, já que tanto o seu pai quanto sua mãe cumpriam longas jornadas de trabalho fora de casa. Foi nessa ápoca que o desenho e a música começaram a ocupar espaço em seu cotidiano. Essa informação é essencial para entender o us de motivos iconográficos e a importância emocional da solidão em sua arte. Mais de 100 LPs da coleção do artista ajudam a compor um histórico dessa infância musical.



Quem quiser ainda pode levar um pouco desse universo lúdico e soturno para casa. Como Takashi Murakami (famoso no mundo inteiro por sua parceria com a Louis Vuitton - o qual já postei uma matéria aqui no blog!!), Nara se multiplicou para além das galerias e produtos para consumo imediato, de toy art a camisetas. Mas seu trabalho é mais arte que comércio. Ele passa muito mais tempo sozinho no estúdio criando a superfície correta, diferente de Murakami, que tem várias de suas obras feitas na fábrica.



PROIBIDO PARA MENORES:


ESCUTE: sinta o gostinho comprando um aplicativo (apenas US$ 3) feito para iPhone. Ele traz imagens dos trabalhos e ainda obras inéditas e estudos do artista. O mais bacana? Uma playlist feita pelo próprio Nara com dicas como um álbum do Ninja Tuna. Let's rock!!

ASSISTA: quer entender o processo criativo e a influência da música na carreira do japonês? Não perca o documentário Traveling with Yoshitomo Nara, (à venda na Amazon por US$ 23), em que ele mesmo conta as histórias mais curiosas de sua trajetória.

LEIA: Nobody's Fool (Harry'n Abrams, 268 páginas, R$ 137) apresenta um bom panorama da vida e das obras do criador das bonequinhas enfezadas, tudo dividido em quatro fases (isolamento, música, rebelião e instalações).

DECORE: tapetes, copos, toalhas de praia, camisetas, toys e despertador são alguns dos produtos que ajudam a reproduzir o clima desse artista. Entre eles, um dos mais populares é o cinzeiro decorado com a personagem Ramona, brava e fumando. À venda na loja virtual do museu por U$ 70.


Seja arte para entretenimento pop ou comércio, a diversão é garantida.


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