Canta Napoli!





Febre de músicas de Renato Carosone invade o mundo e, consequentemente, o Brasil. Passeie nesse guia essencial da cidade-berço desse artista genial. A música napolitana é famosa em todo o mundo e, certamente, você conhece muitas delas. Brega para alguns, clássicas para outros, é inegável a importância cultural dessas canções. Um nome quase desconhecido, no entanto, está se destacando, já que suas letras viraram temas de propagandas e várias ganharam remixes na mão de habilidosos DJs, tornando-se um dos sons mais ouvidos nas praias durante o verão europeu. Ele é Renato Carosone. 


O Adoro Viagem, fã incondicional dessa fascinante cidade, resolveu fazer um pequeno, mas essencial, guia de Nápoles, inspirado na mitologia criada em torno das músicas desse gênio que surgiu para o mundo na década de 1950, mas que é redescoberto a cada dia, e que ajuda a entender a história do sul da Itália.

NAPOLI HISTÓRICA

Nápoles foi fundada pelos gregos recebendo o nome de Parthenope, em homenagem à sereia que, segundo a lenda, habitava as águas do golfo onde surgiu o vilarejo. Localizada num ponto estratégico do Mediterrâneo, a pequena colônia logo se tornaria um importante porto comercial, atraindo os moradores das regiões vizinhas. Com o aumento da população a colônia cresceu, incrementando o surgimento de várias edificações. Foi quando passou a ser chamada Neapolis (cidade nova), de onde derivou o nome Napoli, em italiano.
Ao longo de sua história, Nápoles seria um dos alvos preferidos dos exércitos invasores, a começar pelos romanos, que ocuparam a cidade a partir do século IV a. C. Seguiram-se os bizantinos, os longobardos,  os normandos e os svevos. Na segunda metade do século XIII tornou-se a capital do reino dos anjoinos, atravessando um longo período de esplendor e prestigio cultural. A partir de 1504 passou sob o domínio espanhol, quando se sucederam dezenas de governantes, todos odiados pelo povo. Foi um período marcado por um grande crescimento da cidade, com a abertura de novas estradas e a construção de luxuosos palácios.

Oprimido pelos tirania, o povo se rebelaria em 1647, na insurreição popular comandada por Masaniello (Tommaso Aniello). No entanto, a liberdade duraria até 1714, quando foi dominada pelos austríacos. Conquistada por Napoleão, a cidade passaria por um breve domínio francês, até ser proclamada a República Partenopea, em 1798. Em 1860, depois de ocupada por Garibaldi, foi realizado um plebiscito em que o povo votou a favor de Vitorio Emanuel II. Com a unificação da Itália, em 1861, finalmente Nápoles era italiana.



A partir de 1875, com início da imigração em massa, Nápoles se tornaria o mais movimentado porto de embarque dos imigrantes que seguiam para os países americanos, presenciando verdadeiros dramas, quando famílias inteiras deixavam sua terra natal para seguir rumo ao desconhecido.

Iniciava-se assim o período mais marcante da canção napolitana, cuja poesia era a melhor maneira de traduzir a dor e a saudade de quem partia, sem saber se um dia iria voltar. A discografia de Carosone conta um pouco dessa história, principalmente em “O Sarracino",, que fala justamente sobre a influência arabesca na região, fato que se repete em “Caravan Petrol”.

O SARRACINO 

CARAVAN PATROL
NAPOLI MUSICAL

Tu Vuò Fa L'americano: Nome do maior sucesso de Carosone. A influência norte-americana falava forte à Europa pós-Segunda Guerra, e foi parar em uma das músicas mais divertidas de todos os tempos. Muitos a conheceram ao assistir o filme O Talentoso Ripley (1999), de Anthony Minghella, onde Jude Law e Matt Damon cantam a música em uma das tavernas de jazz napolitanas, na melhor cena do filme:


      
A letra faz referência a um italiano que vive à americana em Nápoles, graças à “borsetta de mamma” (“bolsinha da mamãe”), e que vive desfilando pela Via Toledo. Trata-se da rua mais famosa da cidade, hoje um tanto decadente, mas sem dúvida um bom ponto de partida para se perder por uma das cidades mais interessantes do mundo. E essa letra que foi apropriada por DJs ao redor do mundo, que a a recriaram e a transformaram no hit We Don't Speak Americano, ou, simplesmente PA PANAMERICANO, a música mais tocada do último verão europeu.
Outra música que cada vez mais é usada em comerciais e aproveitada por disc-jóqueis, é a Mambo Italiano. Cantada em inglês macarrônico por Carosone, essa música é uma das mais divertidas, que conta a história do napolitano que retorna a Nápoles após um período em Nova York. Imperdível.


NAPOLI GASTRONÔMICA

 No centro de Nápoles está a Antica Pizzeria Da Michele, a primeira pizzaria do mundo. A Da Michele erve apenas dois tipos de pizza: a Marinara que, ao contrário do que parece, é a vera napolitana com massa, molho e alho; e a Margherita.



A Pizza foi inventada em Nápoles, mas lá ela não vem fatiada, ela é individual e para ser comida no prato, com garfo e faca. Os americanos reinventaram o produto, fatiando ele, o que o transformou num top hit internacional, num snack, numa comida de amigos... Ou seja, foi uma mudança que revolucionou a maneira de comer a pizza.

Por outro lado, nenhum país consegue reproduzir o sabor da pizza que se degusta no sul da Itália. Lá, diferentemente do que se encontra principalmente ao norte, em cidades turísticas, estão as melhores redondas do mundo. A massa média, a mussarela de búfala fresca e o molho de tomate livre de agrotóxicos, redundam na iguaria perfeita, sem paralelos no resto do planeta, mais afeito às receitas cheias de requeijão, frango desfiado e abacaxi adocicado.
Renato Carosone não usou a pizza como inspiração de nenhuma de suas músicas, mas ele não deixa de homenagear outras duas instituições gastronômicas italianas na canção Piccerella: o restaurante Zi Teresa. À beira-mar, o recanto serve sua especialidade, o espaguete ao vôngole, que também é citado na música. No entanto, quase que saindo da cidade, após o bairro posilippo, estão os melhores e não turísticos restaurantes de Nápoles.

Uma refeição completa não sai mais do que 20 euros e você se esbalda de frutos do mar, mariscos, enguias e polvos, além de antepastos regionais, como o pomodorini do Vesúvio e o prosciuto. O Bairro tem uma atmosfera meio decadente, mas é ali é que estão grande parte das baladas da cidade.

Trata-se de uma cidade fascinante, esconde segredos em suas vielas que precisam ser explorados com paciência. Você precisa de apenas três dias para se apaixonar pela cidade e querer sempre voltar às suas casas de jazz, restaurantes fenomenais, pizzarias incríveis e sua atmosfera inigualável. Viva Napoli!

Thiago Iacocca

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