" Final Feliz "


     Achei bem interessante e engraçada a matéria que Leila Ferreira publicou esse mês, ela que é Jornalista, apresentadora de TV e autora do livro "Como ser leve", da Editora Globo.



     Hoje acordei com saudade da vida sem e-mails. Na verdade, a saudade bateu poucos minutos depois. Quando liguei o computador e ari a caixa de mensagens, senti uma nostalgia imensa dos tempos em que a correspondência chegava pelas mãos do carteiro. Motivo? O assunto do primeiro e-mail que li - minha primeira leitura dodia, feita com xícara de café ainda nas mãos era: "Aumente seu pênis com técnicas 100% naturais". Pus o café de lado, reli a frase e abri a mensagem - não me pergunte por quê. Recheados de pontos de exclamação (e eu sempre me pergunto como cabem tantos pontos de exclamação no cyberespaço), o conteúdo era um exercício de otimismo: sem usar "aparelhos, bombas ou dispositivos", e sem "cirurgias doloridas ou mdicamentos fortes", o destinatário da mensagem (no caso, eu).... O segredo? Singelos "exercícios de fifioterapia feitos com as mãos". Agora me diga: alguma mulher merece começar seu dia com um e-mail desses?
     A enxurrada de mensagens indesejadas que se recebe hoje tira qualquer um do sério. E faz pensar: afinal, será que esses remetentes enlouquecidos nunca ouviram falar de algo conhecido como "público-alvo"? Por que um produto voltado para a saúde peniana interessaria a uma mulher? Para que ela, num gesto desprovido de qualquer diplomacia, o oferecesse a seu parceiro?
     Também me acenaram esta semana com a perspectiva de trabalhar como fiscal agropecuário. O curso preparatório para o concurso, segundo o e-mail, é voltado para veterinários e engenheiros agrônomos. Como me formei em jornalismo e letras, fiquei por entender. assim como não sei até hoje por que recebo convites para baladas "heavy" (eu, que amo ficar em casa à noite, de preferÊncia em silêncio, lendo um bom livro), conselhos para "evitar o sapinho em bebês" (eu, que não tenho filhos) ou o comercial de um produto para "acabar com ácaros nos automóveis" (eu, que mal sei a marca do carro que tenho).
     Mas talvez o exemplo que mais ilustre a inadequação desses e-mails que passaram a frequentar nossas vidas sem ser convidados tenha sido o que eu ouvi outro dia, num salão de beleza. Duas amigas, uma empresária e uma decoradora, conversavam sobre a separação recente da empresária, que dizia o quanto estava se sentindo mas livre e feliz depois de deixar o marido. A decoradora comentou, com entusiasmo, que era visível o quanto a separação tiha feito bem a ela: estava mais bonita, mais magra e com um brilho nos olhos que não tinha desde a adolescência. A recém-separada brincou que aquilo tudo poderia ser resumido em: alívio! Tinha se livrado de um marido que, segundo suas próprias palavras, era mal-humorado, egoísta, e ainda por cima, vira e mexe a traía. Seu único arrependimento? Ter demorado tanto tempo para tomar a decisão de colocar um ponto final no casamento. Talvez por isso tenha ficado tão indignada quando, ao abrir sua caixa de mensagens poucos dias depois de pôr o infeliz para fora de casa, encontrou, em forma de e-mail, aquele anúncio que normalmente se vê pregado em muros e postes: "Traga seu amor de volta em 24 horas". Na verdade, o que propunham à empresária era mais específico: "Traga seu homem de volta em 24 horas". Ela contou que primeiro sentiu um arrepio, acompanhado de náusea. Depois deletou a mensagem sem ler. Em seguida foi até a sala do apartamento e deu mais uma volta na chave da porta. "Na minha casa e na minha vida, ele não entra nunca mais!!", garantiu à amiga. E concluiu: "Aquilo não era um anúncio. Era uma ameaça!". Aposto que, naquela hora, a empresária também sentiu saudade do tempo em que não existiam e-mails.
:)))


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