Os bastidores da mudança do Orkut



   Na semana passada, o Orkut ganhou o recurso de grupos, algo inédito entre as redes sociais. Agora dá para dividir seus contatos entre aqueles que são da sua família, do trabalho, da turma da praia, que são inimigos, amantes e qualquer outra divisão que você queira. Se você for como as pessoas que o Google andou pesquisando, terá entre 4 e 6 grupos, cada um com entre 2 e 10 pessoas.
   É, o Google anda estudando bastante sociologia, tentando entender como as amizades no mundo real funcionam. E o recurso de grupos é uma das primeiras novidades a vir daí. Depois, ele pretende transportar todo esse conhecimento para a internet, em um novo projeto de rede social. O objetivo final é competir o Facebook, que o Google considera sua principal ameaça na rede.
   Até agora, as tentativas do Google de criar sites sociais falharam. O Orkut só é grande no Brasil – na Índia, já foi ultrapassado pelo Facebook. Projetos inovadores como o Buzz e o Wave falharam. Agora, a estratégia é comprar empresas de jogos e tecnologias sociais que permitam criar alguma coisa melhor que o Facebook. Nessa guerra toda, o Orkut provavelmente vai se beneficiar ao servir de campo de testes, ganhar alguns recursos de rebarba ou virar parte dessa nova rede social.
   Outra estratégia do Google é, em vez de forçar que adaptemos a nossa vida ao Orkut, permitir que o site se adapte a como nós somos. Todas as redes sociais funcionam com a premissa de que as pessoas são meio robóticas, com só um comportamento e imagem para todas as pessoas que conhecemos. Além disso, elas assumem que todos os amigos são igualmente próximos. As pesquisas do Google, no entanto, mostram que o mundo não é assim. Muitas dessas descobertas da empresa foram apresentadas em uma palestra de Paul Adams, pesquisador de usabilidade do Google. E renderam vários insights legais.
   Em primeiro lugar, eles analisaram 342 grupos de contatos para ver como as pessoas se referiam a eles. Apenas 12% usaram o termo “amigo” para se referir a eles e apenas 3% dos grupos eram descritos como amigos de fato. Além disso, a identidade, o comportamento e até o jeito de se vestir de uma pessoa muda de acordo com o grupo que ela vai encontrar. Você é uma pessoa bem diferente quando vai jogar futebol do que é quando chega ao trabalho. Essas turmas raramente se sobrepõem: tentar juntar no mesmo lugar os amigos da igreja com os do bar pode ser uma catástrofe. Mas é o que acontece no modo como as pessoas costumam usar as redes sociais: uma só página para todo mundo.  Ao separar esses grupos, o Orkut quer permitir que eles vivam separados e aumentar a privacidade do usuário.
   Além disso, nem todos os amigos são iguais. Dentro de cada grupo, alguns amigos são mais próximos (o que chamam de “laços fortes”) e outros são mais distantes (“laços fracos”). Os primeiros são aqueles com quem você fala frequentemente e dedica boa parte de seu tempo. Só para citar um exemplo, usuários de Skype normalmente dedicam 80% das ligações a apenas duas pessoas, seus amigos mais próximos. Já os contatos distantes, apesar de não visitarem sempre a sua casa, são a sua maior fonte de opiniões, novidades e ofertas de emprego. Pesquisas nas últimas décadas mostram que as pessoas costumam ter entre 2 e 6 laços fortes, e não mais do que 150 laços fracos. A importância desses diferentes tipos de amigos já é conhecida pela sociologia desde a década de 1980 – em especial, com as pesquisas do americano Mark Granovetter – mas as redes sociais ainda não reconhecem essas diferenças. Sabe-se lá como o Google vai lidar com isso.
   As pesquisas mostram que as redes sociais ainda podem melhorar muito. O recurso de grupos do Orkut é só um primeiro passo, que pode ou não funcionar. Mas, de qualquer forma, é bom ver sociólogos – e não apenas engenheiros – criando os sistemas que usamos na internet.


Estou preferindo o Facebook do que orkut
#)

Comentários